Estados Marave: origem, localização, actividades económicas, política, ideologia e decadência

O termo Marave está ligado à formação etnolinguística, ligado ao clã Phiri. Os Maraves eram um conjunto de pequenos reinos que existiram no Norte do Zambeze, zona de Tete, desde o século XVI até ao século XIX.

Qual é a origem dos Maraves?

Os Estados Marave formaram-se como resultado da chegada de sucessivas vagas emigrantes, oriundos da região de Luba do Congo e liderados pelo clã Phiri, e dos Lundu que viviam em Tete, expandindo-se depois ao longo do rio Zambeze até à costa.

Os conflitos no seio da linhagem dominante culminaram com a formação de vários estados-satélite do Karonga, com destaque para os seguintes: Undi, Biwi, Lundu e Kapwiti.

Actividades económicas no Estados Marave

O povo marave dedicava-seà agricultura, pecuária, metalurgia, a extracção de metais(ouro), o comércio de marfim e a produção da machila.

Na agricultura produziam a mapira, milho, batata-doce, inhame, feijão, amendoim e bananas. A maior parte das actividades agrícolas era realizada por mulheres. Os homens dedicavam-se à criação do gado bovino, caprino e ovino à caça ao elefante.

Os metais preciosos e o marfim tinham como destino principal a exportação e eram muito cobiçados quer pelos europeus quer pelos árabes. Já a machila, uma espécie de tecido de algodão muito forte (lona), dominou o comércio do interior para a troca comercial.

A organização político-administrativa

Na sociedade marave a organização política e administrativa do Estado era muito complexa. Na estrutura da base tínhamos o chefe da aldeia, conhecido por Fumu ou Mwini-Mudzi, acima desta estrutura encontramos o chefe territorial, designado por Mwini ou Dziko.

O chefe provincial estava acima do chefe territorial e controlava vários territórios, era chamado Mambo, sendo o chefe supremo o Undi. Os mbili eram um corpo de conselheiros dos chefes, auxiliados por um conjunto de funcionários menores. Todos os chefes estavam ligados por laços de parentesco.

O poder era hereditário e a sucessão era matrilinear. O poder passava de tia para o sobrinho, filho da irmã. Todavia, havia guerras de sucessão, ou porque a filiação, ainda assim, era questionada, ou porque havia nomeação directa para cargos de Estado.

A estrutura socioeconómica

A diferenciação social nesta sociedade baseava-se na riqueza económica de cada integrante. Os camponeses cultivavam a terra, criavam o gado, trabalhavam nas minas, caçavam os elefantes. Os chefes eram a população mais rica, porque administravam a exploração das produções e o comércio e, recebiam tributos.

Os tributos eram regulares (marfim, tabaco, géneros alimentares, animais caçados, utensílios de ferro, cestos, esteiras e panos) e rituais (primícias das colheitas). Os chefes ainda recebiam taxas pela resolução de disputas e taxas de trânsito pelo território.

Qual foi o impacto do capital mercantil nos Estados Marave?

O capital mercantil nos Estados Marave enriqueceu os chefes locais tornando-os mais poderosos. Mas também suscitou intrigas internas, são exemplos disso as lutas entre os Karonga e os Lundu e a consequente expansão Nyanja. deologia

A religião na sociedade marave desempenhava um papel importante em matéria de controlo político. Os médiuns espíritas tinham o estatuto mais elevado do que os próprios imperadores, pois tinham por função aconselhar o soberano sobre todos os assuntos do Estado. O culto mlira era para assegurar a coesão social do Estado Kalonga, celebrava-se uma vez por ano.

Os Marave praticavam cultos ligados à fertilidade das terras, à invocação da chuva e ao controlo das cheias. Estes cultos designados por Chisumpi eram dedicados à veneração de espíritos naturais e o Muáridedicado a entidades supremas.

Causas da Decadência dos Estados Marave

A decadência dos Estados Marave iniciou em meados do século XVII, intensificada no fim do século XVIII, pela penetração de uma geração de mercadores. E a queda final deu-se no século XIX, com a chegada dos Nguni.

Eis as causas da decadência dos Estados Marave:

·         Os vários líderes Marave como os Phiri, os Caronga e os Lundu, ambicionavam ser senhores de grande prestígio. Para tal, usavam os produtos de troca mercantil, os tecidos e as missangas. Contudo, para poderem receber, tinham de ter marfim para trocar. Desta forma, os Marave disputavam as rotas comerciais ao longo do Zambeze, a fim de obterem mais produtos de prestígio.

·         A ganância pelo controlo do produto de maior riqueza levou os vários líderes Marave a lutarem entre si;

·         A abundância de marfim trouxe mercadores estrangeiros ao território que acabaram por minar o próprio comércio;

·         Gonçalo Caetano Pereira foi um português que casou com uma filha do Undi e que, como dote, recebeu terras nesse Estado. O português acabou por formar um Estado rival ao Undi, o forte Estado militarizado do Macanga;

·         As rotas comerciais marave são substituídas pelas rotas dos Ajaua no século XIX. Os Marave perderam o monopólio do comércio de marfim para os Ajaua.

·         E o aparecimento dos Nguni, oriundos do movimento do M’fecane, a partir de 1835.

 

Bibliografia

KI- ZERBO, Joseph. História de África Negra. Mira Sintra, Publicações Europa – América; Vol. I, 3ª ed. 1999.

NEWITTI, Malyn. História de Moçambique. Edição, Publicações Europa – América, 1997

SOUTO, Amélia de Neves. Guia Bibliográco para Estudante de História de Moçambique. (200/300-1930), Maputo

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